Philip Ridley
chamou a atenção nos anos 1990, ao mesclar sexo, violência, medo e
terror

RIO - Foi uma
estreia perturbadora. Há 20 anos, o desconhecido Philip Ridley
colocava em cena o resultado de sua primeira investida na
dramaturgia. A peça "The Pitchfork Disney" fez muita gente repensar
as possibilidades do que era apresentado como teatro na cena
britânica. Até então, com algumas exceções, os palcos londrinos
abrigavam montagens grandiosas, épicas, ou diametralmente opostas,
intimistas, flertando com o naturalismo — também oscilavam
entre a benevolência e o panfleto. Poucos estavam preparados para a
mescla de surrealismo dark e fantasia de cenas que embaralhavam,
sem didatismo, medo e desejo, sexo e terror, violência e
inadequação — insumos que intoxicavam a história de dois
irmãos que sobrevivem à base de doces, remédios para dormir e
brincadeiras aterrorizantes sobre o mundo fora da casa que lhes
serve de abrigo.Duas décadas mais tarde, a montagem estreia pela
primeira vez no Rio — após uma temporada em São Paulo
—, no dia 6 de janeiro, no Espaço Sérgio Porto, insinuando
novos contrastes sobre a pele dos atores Samantha Dalsoglio,
Alexandre Tigano, Felipe Folgosi e Darson Ribeiro, que também
assina a produção, a tradução e a direção da montagem, rebatizada
"The Disney killer". Se na estreia inglesa o termo chocante era o
adjetivo-matriz da elucubração crítica, agora Ridley, 47 anos, não
sabe o que esperar:
— Não há algo preconcebido.
Sei que escrevo para me assustar, para me desafiar, para me
surpreender — diz ele.
Promissor artista plástico na
adolescência, Ridley se firmou como diretor e dramaturgo. Com mais
de dez peças no currículo, define-se como "um contador de
histórias", e é a partir daí que subdivide suas ideias em romances,
contos, novelas infantis, fotografias e longas-metragens. Com três
filmes lançados — o último deles é "Heartless" (2009)
—, Ridley acaba de estrear, em Londres, uma nova peça,
"Tender napalm". Unanimidade de crítica, a montagem traz à cena um
homem e uma mulher que lutam para dar sentido à história de amor
que vivem em meio a um mundo violento. Os embates entre fantasia e
realidade, entre amor e violência dominam a cena, características
que, de algum modo, conectam Ridley à sua primeira criação
dramática.
Sua carreira como
dramaturgo surgiu a partir das artes visuais. Como tudo
começou?
PHILIP RIDLEY: Meu
trabalho em teatro parte da performance. O que eu apresentava em
galerias de arte já tinha grandes monólogos, alguns com mais de
cinco horas. Lembro-me de que aqueles textos começaram a chamar a
atenção, até que um grupo de atores me encorajou a transformar
aquilo numa peça. Foi o gatilho: atores sempre entenderam meus
escritos antes de qualquer um. São eles que me inspiram e me dão
coragem.
Mas houve uma virada, algum
momento-chave para essa afirmação nos palcos?
Nunca tive um plano de carreira. Se
tenho uma história para contar que precisa ser narrada como uma
peça, a escrevo. Tive grandes lapsos entre uma peça e outra.
Nesse ínterim, o senhor
lançou livros, curtas, pintou, fotografou... Como funciona a
relação entre essas vertentes, de que modo elas servem ao Philip
autor?
Sou um contador de histórias. E as
conto em diferentes maneiras. Tudo depende de como a história pede
para ser contada... A decisão não cabe a mim. Sempre foi assim.
"The Disney killer" põe em
cena dois irmãos que dividem o teto e o medo do mundo lá fora, até
que veem sua casa invadida por duas figuras aterrorizantes. A ideia
de pôr abaixo os limites do lugar que nos serve de abrigo e escudo
é um catalisador de medo, ansiedade, raiva. Esses sentimentos estão
em cena como a amálgama de medos coletivos que pairavam sobre a sua
geração?
Estranhamente, "The Disney..." é
mais um zeitgeist dos tempos de hoje do que da época em que foi
escrita, ela faz muito mais sentido para os jovens de hoje do que
jamais fez. Desde o 11 de Setembro, vivemos aquilo que se
convencionou chamar de "A era do medo". Essa peça cabe
perfeitamente nessa concepção. Muitos dos temas e aspectos de que a
peça tratava eram vistos sob um viés da fantasia, enquanto hoje não
há nada de fantasioso, mas, sim, de um realismo total. Pessoas com
medo do mundo externo e se trancafiando é um fenômeno que cresce
exponencialmente. Pessoas com vidas fantasiosas há em todo lugar
com computador, assim como pessoas ganhando dinheiro a partir de
acontecimentos chocantes ou catastróficos. Basta notar que os
vídeos mais acessados no YouTube revelam atrocidades. Vejo que
todos esses aspectos são explorados na peça. O que eu tateava à
época era o medo de uma violência crescente e aleatória. Um mundo
que não faz mais sentido. Porque o mundo em que vivemos hoje é o
próprio mundo de "The Disney...".
A peça foi considerada
chocante pela crítica. Certa vez, o senhor disse que se surpreende
quando um novo texto é classificado dessa forma. Mas, mesmo que não
haja a intenção de chocar, o senhor fala conscientemente de temas
fortes.
Não traço planos... E esses são os
sonhos que tive a partir do mundo em que vivemos. Algumas peças que
escrevi são consideradas chocantes, outras, não. Deixo que as peças
sejam o que elas desejam se tornar. Se há cenas que chocam as
pessoas... Que seja. Se uma cena se insinua como algo possivelmente
chocante, é claro que tenho de lapidar até que ela funcione do modo
correto. Assim como Hitchcock fez com a cena do banho em "Psicose".
Mas não tenho uma agenda, um manifesto. É interessante. Sempre sou
questionado sobre a ideia do choque em relação ao teatro, mas nunca
em relação aos filmes que faço...
Em "The Disney killer" a
insinuação de um mundo externo que ameaça a segurança e invade as
fronteiras da redoma dos dois irmãos é uma crítica explícita a uma
geração com medo de deixar a segurança de casa, de viver em
sociedade?
Três dos meus autores favoritos são
Philip K. Dick, Borges e Gabriel García Marquez. E eu percebo essas
influências principalmente em "Disney killer". Haley e Presley
criam a realidade de que eles precisam para que possam sobreviver.
E, de alguma forma, todos nós fazemos o mesmo. Aquilo que
imaginamos que seja o real pode ser mais real que a verdade dos
fatos. Nossas memórias distorcem, editam, criam coisas. Não são
confiáveis. Isso me fascina. Na peça, os dois irmãos dividem uma
fantasia que, para eles, é a verdade. Até que Cosmo os chacoalha
para fora de suas confortáveis fantasias.
Há uma metáfora indicando
que é por meio do enfrentamento de nossos medos que podemos nos
aproximar da essência de quem somos? E, a partir daí, vivermos mais
plenamente, sem medo de nós mesmos, ou daquilo que criamos dentro
de nós?
Acho que a peça abre uma miríade
repleta de espelhos metafóricos. Cada um espelhando o oposto do
outro. Para mim, é uma peça sobre a insanidade que temos de criar
para que possamos viver num mundo insano. Acho que é sobre amor.
Haley e Presley se preocupam um com o outro. Como você protege o
que você ama num mundo que pode destruir esse amor? A imaginação
pode nos salvar, mas também pode nos aprisionar. E ainda assim é
tudo o que temos.
Tanto a crítica como o
público têm declarado que a sua nova montagem, "Tender napalm", é
uma mudança drástica no seu modo de escrever. O que há de tão
diferente?
Não há um set específico, e a linha
do tempo é absolutamente fragmentada. Mas eu sempre estou testando
meus limites e mudando de direção. Há muitas diferenças entre as
minhas peças.
Como analisa a evolução do
seu trabalho como dramaturgo ao longo dos últimos anos? E até que
ponto se reconhece ou não em suas criações?
Por muito tempo neguei qualquer
traço autobiográfico. Mas, quanto mais observo, mesmo as peças mais
antigas, mais sinto que são parte de mim. Tem mais a ver com
sentimentos e imagens do que com personagens ou episódios. Meu
trabalho se tornou mais deliberadamente autobiográfico ao passo que
fui envelhecendo. "The brothers trilogy" ("Mercury Fur", de 2005,
"Leaves of glass", de 2007) e "Piranha heights", de 2008) contam
com uma série de momentos biográficos, enquanto "Vincent river"
(2000) é baseada no assassinato de um amigo da escola de artes.
Certa vez, o senhor disse
que está além da ideia de verdade, que nunca coube no realismo.
"The Disney killer" flerta com a fantasia, traz um surrealismo
"dark" para uma dramaturgia que chegou a ser tratada como uma
possível gênese do In-Yer-Face theatre, outros dizem que os autores
da sua geração foram ofuscados pela explosão do In-Yer-Face, um
teatro visceral, impactante, que provoca.
Alguns acadêmicos definiram
"Disney..." como a peça que catapultou toda a revolução
dramatúrgica do In-Yer-Face. Mas eu nunca me senti parte de
movimentos. Sempre fui um outsider. O que me interessa é contar
histórias que acho capazes de mobilizar e afetar as pessoas. A
coisa mais importante é transportar o espectador para uma jornada
que o faça sentir a vida com mais intensidade, paixão, mágica,
mistério, mais... Bem, apenas mais! É isso. Quero que as pessoas
sintam suas vidas... Mais!